segunda-feira, 23 de julho de 2012

3# - Reflexões !



História de um qualquer um

Num mundo em que fui esgurmitado
Por um senhor bem maior do que aqueles que eu vejo
Não ser mais injuriado
É tudo mais que eu desejo

Caminhando infinitamente
Com destino a lugar nenhum
Uma mera coisa em minha mente
Agrava meus passos um a um

Como um parasita
A fome é minha única companheira
Briga muito e comigo se irrita
De um jeito sem brincadeira

Chego numa casa na frente de onde eu nasci
Após meu nascimento minha mãe veio a partir
Deixando-me apenas o seu desejo de me ver feliz
Com seres maiores dormindo num chão riscado de giz 

Eu olhei para o lado vi meu irmão ser levado
Por uma pessoa sem coração
Num lixo ele foi jogado
Pelo lixeiro do caminhão
Outro dos meus irmãos
Esse teve muito azar
Sabe aquele lixeiro do caminhão?
Foi quem veio a ele atropelar

Que sorte teve meu ultimo irmão
Uma garotinha que estava passando
Depois de nos ver veio um aperto no coração
Pegou na mão o meu irmão e foi o levando

E ali estava eu
Sozinho, sozinho, sozinho
Somente com o sentimento meu
E o receio de ter nascido um gatinho

Eis o meu primeiro golpe da vida
Sem mãe, sem ao menos meu irmão
Numa esdrúxula vida esquecida
Apenas com fome, dor e solidão

Eu já sabia que não sobreviveria muito tempo
Com um ser que vive a lixo comer
E jogado ao relento
Iria sobreviver?



Eu ainda superei minha expectativa
Dois meses diários de luta e sofrimento  
Onde a minha própria perspectiva
Fazia-me desconfiar da mim naquele momento
 
Cheguei a meu destino final
Minhas entranhas, nem mais isso me restava
Tentava pelo menos chorar de dor
Mas até as lágrimas me faltava
Cansado, com fome e com sede
Deitado fiquei, pois em pé não me agüentava

Chega de vez em quando alguém a passar
Mas o que me intrigava
É porque mesmo ao meu lado se a pessoa sentar
Ela sempre me ignorava
Mas um certo senhor de barba veio a chegar
Eu achei que era como mais um dos que ali estava
Ele sentou ao meu lado a esperar
E concentradamente ele me olhava
Eu continuei sem acreditar
Mas ele ainda continuava
O olhar dele me fez tentar
E ele não parava
Até que minhas ultimas forças eu resolvi usar
Para ver se o conquistava


Dei três passos
Sempre a tombar
Mesmo pisando” infalso”
Eu continuava a andar

Até que chegou uma hora
Nesse momento eu caio
Minhas forças vão embora
Eu tento sair, mas não saio
 
E aquela pessoa que eu achei ser diferente
Apenas agora me parecia normal
Passava ao redor de tanta gente
Era como outro igual

Eu fechei os olhos e pensei
Será que eu atingi minha meta
Ao abrir outra vez, vi que aquele senhor
Sim, aquele senhor era diferente, era um poeta

Olhei para a desgraça dos meus fluidos corporais    
Que ali se desgastavam, degradando meu coração
Seria aquela como uma comum da quais
A qual iria me chutar no chão
Mas eu pensei como seria demais
Se eu tivesse nascido como um desvairado desses sem coração
E aquele senhor, que não parava de me olhar
Eu ao tranco da minha morte ao me debater
E com tanta gente a passar
Eu vi nos olhos dele uma lágrima escorrer

Eu não entendi aquilo, só sei que não modificou nada
Sei também que o resto das pessoas ficou extasiada
Parecendo que nunca viu um gatinho morto em uma estrada
Atropelado em estado de putrefação, numa estrada movimentada

Fui esquecido como numa frase um adjunto  
Nesse velho, tosco, horrendo mundo chato
Meu Deus apenas eu te pergunto
Porque fui nascer um gato?

(Raimundo A. Fernandes)

FACEBOOK : Raimundo A. Fernandes

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