História
de um qualquer um
Num
mundo em que fui esgurmitado
Por um
senhor bem maior do que aqueles que eu vejo
Não ser
mais injuriado
É tudo
mais que eu desejo
Caminhando
infinitamente
Com
destino a lugar nenhum
Uma mera
coisa em minha mente
Agrava
meus passos um a um
Como um
parasita
A fome é
minha única companheira
Briga
muito e comigo se irrita
De um
jeito sem brincadeira
Chego
numa casa na frente de onde eu nasci
Após meu
nascimento minha mãe veio a partir
Deixando-me
apenas o seu desejo de me ver feliz
Com
seres maiores dormindo num chão riscado de giz
Eu olhei
para o lado vi meu irmão ser levado
Por uma
pessoa sem coração
Num lixo
ele foi jogado
Pelo
lixeiro do caminhão
Outro dos meus irmãos
Esse teve muito azar
Sabe aquele lixeiro do caminhão?
Foi quem veio a ele atropelar
Que sorte teve meu ultimo irmão
Uma garotinha que estava passando
Depois de nos ver veio um aperto no coração
Pegou na mão o meu irmão e foi o levando
E ali estava eu
Sozinho, sozinho, sozinho
Somente com o sentimento meu
E o receio de ter nascido um gatinho
Eis o meu primeiro golpe da vida
Sem mãe, sem ao menos meu irmão
Numa esdrúxula vida esquecida
Apenas com fome, dor e solidão
Eu já sabia que não sobreviveria muito tempo
Com um ser que vive a lixo comer
E jogado ao relento
Iria sobreviver?
Eu ainda superei minha expectativa
Dois meses diários de luta e sofrimento
Onde a minha própria perspectiva
Fazia-me desconfiar da mim naquele momento
Cheguei a meu destino final
Minhas entranhas, nem mais isso me restava
Tentava pelo menos chorar de dor
Mas até as lágrimas me faltava
Cansado, com fome e com sede
Deitado fiquei, pois em pé não me agüentava
Chega de vez em quando alguém a passar
Mas o que me intrigava
É porque mesmo ao meu lado se a pessoa sentar
Ela sempre me ignorava
Mas um certo senhor de barba veio a chegar
Eu achei que era como mais um dos que ali estava
Ele sentou ao meu lado a esperar
E concentradamente ele me olhava
Eu continuei sem acreditar
Mas ele ainda continuava
O olhar dele me fez tentar
E ele não parava
Até que minhas ultimas forças eu resolvi usar
Para ver se o conquistava
Dei três passos
Sempre a tombar
Mesmo pisando” infalso”
Eu continuava a andar
Até que chegou uma hora
Nesse momento eu caio
Minhas forças vão embora
Eu tento sair, mas não saio
E aquela pessoa que eu achei ser diferente
Apenas agora me parecia normal
Passava ao redor de tanta gente
Era como outro igual
Eu fechei os olhos e pensei
Será que eu atingi minha meta
Ao abrir outra vez, vi que aquele senhor
Sim, aquele senhor era diferente, era um poeta
Olhei para a desgraça dos meus fluidos
corporais
Que ali se desgastavam, degradando meu coração
Seria aquela como uma comum da quais
A qual iria me chutar no chão
Mas eu pensei como seria demais
Se eu tivesse nascido como um desvairado desses sem
coração
E aquele senhor, que não parava de me olhar
Eu ao tranco da minha morte ao me debater
E com tanta gente a passar
Eu vi nos olhos dele uma lágrima escorrer
Eu não entendi aquilo, só sei que não modificou nada
Sei também que o resto das pessoas ficou extasiada
Parecendo que nunca viu um gatinho morto em uma
estrada
Atropelado em estado de putrefação, numa estrada movimentada
Fui esquecido como numa frase um adjunto
Nesse velho, tosco, horrendo mundo chato
Meu Deus apenas eu te pergunto
Porque fui nascer um gato?
(Raimundo A. Fernandes)